crítica ‘jurema’ por paloma durante

Jurema

Há uma arte comum em todos os utopianos que é a prática da agricultura. Há uma arte comum no nosso modelo de cidadão que é o acesso aos bens tecnológicos. Thomas Morus se preocupa que tudo o que seja produzido e feito em Utopia seja de utilidade pública e individual dos utopianos. As nossas relações mercadológicas se preocupam com o desenvolvimento de aparatos de tecnologia cada vez mais sofisticados, para que tudo o que seja produzido seja consumido de maneira mais rápida por um preço de produção mais barato em troca de criar uma necessidade que nos custe muito mais.

A palavra Utopia vai cair no gosto do nosso vocabulário com temperanças outras que a proposta pelo nosso filósofo. O sentido do ideal para o homem moderno não se estabelece nas relações harmônicas entre os estratos sociais, mas no que permite a sua diferenciação e a ingênua ideia de ascensão. Se para o primeiro o operário é elemento essencial para o fluir de um bem estar social, para nós essa humanidade passa a ser um problema: sua carne, sua temporalidade e seus questionamentos não interessam a esse novo modelo de utopia, relacionada a consumir o que se é. Assistimos cidades inteiras serem tomadas pelos galpões industriais, com a promessa de um futuro mecanizado, ágil e facilitador dos afazeres humanos.

É claro que a perspectiva de um mundo tomado por máquinas geraria também uma série de situações apocalípticas, fazendo com que essa outra produção a qual a máquina ainda não tomou conta ((((acabei de me lembrar do aclamado surgimento da prensa e sua fácil reprodutibilidade)))), encontrasse ali um terreno fértil para situações (não tão) ficcionais. Huxley, Orwell, Asimov, Welles, Bioy Casares, Borges, são alguns dos muitos autores que falarão sobre impressionantes máquinas capazes de alterar nossa relação com o mundo: desde meios de produção até o que entendemos de tempo-espaço e formas de se deslocar por ele. Esse encanto com a machina, essa ideia primária de que ela é uma espécie de remédio, de meio expediente, sempre foi um grande impulso no que se atribui a uma ideia de evolução. Não à toa, temos o advento de uma série de máquinas como marcos de transição de períodos históricos e fenômenos sociais; se usou o domínio de certa tecnologia como critério de cultura complexa ou primitiva. A machina hoje é tão adjetivo quanto é substantivo. Doces subservientes, moldamos o mundo tendo-as como protagonistas e nosso corpo mero coadjuvante.

Essa corrida, claro, gera incontáveis descartes: a máquina se cria para ser substituível, sem sofrer os penosos danos gerados pelo afeto. Tomando esta conta emprestada, se as mudanças tecnológicas crescem em progressão aritmética, o lixo eletrônico segue uma ascendente em progressão geométrica. Nada se sustenta na utopia da máquina. Sucumbimos, todos os dias, ao ideal do consumo. Programados a uma eterna insatisfação e a ter memória de ciborgues. A Jurema, neste contexto é a machina distópica. Nasce de tudo o que é dispensável, incongruente e avesso a essa corrida. Tudo nela resiste nessa crueza de artesão, contando apenas com a minúcia do trabalho manual, esse que deveras abusa de um tempo que não corresponde ao do meio urbano. Resto de computador, bilhetes velhos de transporte coletivo, fios coloridos, caixa de óculos e um talo de madeira; o que se pode chegar perto de um aparato mais elaborado nesta construção é o seu sistema de programação, proveniente do Arduíno que, ainda assim, surge como uma ferramenta de acesso e baixo custo para um público amador. Ou seja, não existe a intenção qualquer de gerar exclusividade ou necessidades que não possam ser supridas, ou prazeres a serem postos à conta-gotas. Inclusive o nome dado, não aspira qualquer elegância ou o desvelamento de algo hermético ou simbólico, como a maçã ou a galáxia. Jurema, na sua origem, diz de mal cheiro; acaba sendo coerente com sua forma que é uma catação de partes.

A Jurema é uma machina de caráter artesanal, programada para comandar os movimentos de uma máquina nos vetores X e Y. Essa programação é muito utilizada principalmente nos sistemas de automatização de máquinas assistidas por um computador. Falamos de uma linguagem de programação aplicada na grande indústria, para criar os aparatos que alimentam a utopia moderna. Transportada em um saquinho de feira, não sabemos se falamos da origem ou da decadência de um sistema, quando o cerne da máquina maravilhosa pode partir da junção de elementos de uma vulgaridade tão cotidiana. Jurema não é um fóssil. E também não é ressignificação. Jurema é uma machina ordinária de ordem, é o moto-contínuo desse processo de montagem e descarte, com os garranchos de uma mão invisível.

 

Paloma Durante

Jurema